Arquivo de fevereiro, 2004

Carnaval

Uma cidadezinha em Minas perdida no mapa. Ladeiras de pedras. Velhos amigos. Novos amigos. Uma mulher insuportável. Grilos. Água da mina. Champanhe de quinta. Colina. Um milhão de estrelas. Centenas de vaga-lumes. Alceu Valença. Estradas de terra. Cachoeira. Cachaça de abacaxi. Sorvete de Toblerone. Bloco do Barril. Chuva. Chuveiro. Balinha de canela. Um desejo não realizado. “Só hoje”.

 

E uma vontade de voltar…

 

Conto até dez…

Pra não te ver, fecho os olhos. Pra esquecer, conto até dez. Troco de roupa. Prendo a respiração. Viro a página. Ouço outra música. Conto até dez. Durmo mais tarde. Saio mais cedo. Fecho as janelas. Faço as malas. Conto até dez. Sumo daqui. Escrevo coisas sem sentido. Faço coisas das quais tenho medo. Falo coisas nas quais não acredito… Até quando? Quando? Conto até dez…

Equalize

Olha só como são as coisas… Eu não gosto da Pitty. Mas hoje estava assistindo ao Luau MTV e a vi cantando uma música cuja letra me chamou muito a atenção. Identificação imediata. Quem me conhece ou tem acompanhado o blog sabe do que estou falando. É engraçado como às vezes nos encontramos em coisas e pessoas onde menos esperamos. Lembrei agora de uma entrevista do Renato Russo, na qual ele falava sobre como uma música do Gilliard pode dizer tudo o que você sente em um momento. Não que a Pitty seja brega. Mas nunca fui fã ou mesmo gostei de suas músicas. Mas hoje ela é o meu Gilliard.

Equalize
(Pitty/Peu Souza)

Às vezes se eu me distraio
Se não me vigio um instante
Me transporto pra perto de você
Já vi que não posso ficar tão solta
Me vem logo aquele cheiro
Que passa de você pra mim
Num fluxo perfeito
E enquanto você conversa e me beija
Ao mesmo tempo eu vejo
As suas cores no seu olho, tão de perto
Eu me balanço devagar, como quando você me embala
O ritmo rola fácil, parece que foi ensaiado

E eu acho que eu gosto mesmo de você
Bem do jeito que você é

Eu vou equalizar você
Numa frequência que só a gente sabe
Eu te transformei nessa canção
Pra poder te gravar em mim

Adoro essa sua cara de sono
E o timbre da sua voz
Me dizendo coisas tão malucas
E que quase me mata de rir
Quando tento me convencer
Que eu só fiquei aqui
Porque nós dois somos iguais
Até parece que você já tinha
O meu Manual de Instruções
Porque você decifra os meus sonhos
Porque você sabe o que eu gosto
E porque, quando você me abraça, o mundo gira devagar

E o tempo é só meu e ninguém registra a cena
De repente vira um filme, todo em câmera lenta
E eu acho que eu gosto mesmo de você
Bem do jeito que você é
Eu vou equalizar você
Numa frequência que só a gente sabe
Eu te transformei nessa canção
Pra poder te gravar em mim

E quem irá dizer que existe razão?

As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

(Carlos Drummond de Andrade)

Antes que me perguntem: sim, estou inspirada… Não estou extremamente feliz. Mas o querer ser é o que importa, não é verdade? Certos sonhos têm a capacidade de nos fazer felizes apenas por existirem. Pelo desejo, pela ansiedade, pela possibilidade.

Um brinde ao desejo.

Tenham uma excelente semana.

Drummond e Adélia

Achei este poema da Adélia Prado no blog da Marina. Perfeito. Já tinha lido há muito tempo e nem lembrava mais. Claro que tive de reler o poema do Drummond, que vai de brinde pra vocês:

Drummond e Adélia