“Tudo que morre fica vivo na lembrança
Como é difícil viver carregando um cemitério na cabeça…”
Muita gente (principalmente homens inseguros) implica com o apelido clichê com o qual as mulheres batizam aquele ex que deve ser esquecido e/ou não traz boas lembranças: FALECIDO. Não acho linda essa nomenclatura, mas também não acho nenhum absurdo ou mesmo ofensivo. Ninguém ta desejando a morte literal da criatura, mas só desejando que ela “desencarne”, metaforicamente falando, da sua vida. É simplesmente algo do tipo “deletei fulaninho da minha vida” e não quero vê-lo nem pintado de ouro (mas se aparecer, até sou capaz se jogar uma moedinha pra ele se mexer).
Os falecidos podem ser elevados (hein?) a essa categoria fantasmagórica basicamente por dois motivos: ou você, mesmo terminado o relacionamento ainda gosta da pessoa e precisa evitá-lo a qualquer custo para não cair em tentação… Ou o dito cujo aprontou alguma boa e você passou a odiá-lo no nível de ter brotoejas só com a possibilidade de contato com o tal. Seja qual for a razão do “assassinato” mental, a finalidade é uma só: esquecer que aquela pessoa existiu. No entanto, assombração que é assombração acaba surgindo na nossa frente mais cedo ou mais tarde e nem adianta se benzer.
O fato é que essas assombrações nos perseguem, e se manifestam em qualquer hora e lugar, sem precisar de TV fora do ar ou brincadeira do copo.
Existem, em um nível de terror mais brando, as manifestações indiretas: coisas, situações e lugares que simplesmente vão te remeter àquela pessoa, e você transfere seu desespero para essas coisas. Dos presentes e das fotos você até consegue de desfazer e evitar aquela lagrimazinha sorrateira de amor ou de ódio. Mas, por mais que você tente abstrair, sempre vai passar aquele filme maldito (que assistiram juntos), tocar aquela música (do primeiro beijo) ou não vai ter desvio que evite passar em frente a casa dele pro resto da vida.
Pessoalmente, eu que sou uma pessoa super racional (aham) já cheguei ao cúmulo de jogar fora dois DVD’s. Por que não dei de presente pra alguém? Porque não adiantaria. O exorcismo não seria completo, entende? A pessoa iria perguntar porque estou dando e sempre ia lembrar me disso. Já é humilhante o bastante alguém não conseguir lidar com um simples DVD na prateleira. Seria lembrar toda hora que é burra, e isso só é divertido aqui no site, e não no seu quarto na hora de dormir, né?
Existem também as manifestações físicas, que envolvem contatos visuais com o dito fantasma. Outro dia presenciei uma manifestação física fortíssima. Estava na rua com uma amiga super certinha e careta. De repente, ela entrou correndo numa sex shop. Eu olhei prum lado, olhei pro outro e ela tava lá dentro, entre a seção de DVD e a de vibradores, com os olhos mais arregalados que já vi na minha vida. Deduzi logo: tinha visto um fantasma daqueles. O que leva uma mulher adulta, inteligente e bem resolvida a pagar um mico desses? Só mesmo essa nossa mania de nos apaixonarmos cega, surda e burramente.
O mais irônico dessas histórias de terror é que, por maior que sejam nossos esforços, esquecer mesmo, a gente NUNCA esquece. A gente pode até relevar e passar a conviver bem com nossos fantasmas, sem grandes sustos, mas eles nunca deixarão de existir.
