Arquivo de dezembro, 2009

Noite feliz?

Todo fim de ano é a “lesma lerda”: apesar do clima de confraternização, de oba-oba, de sidra vagaba e comidas engordiet… A mulherada que não está bem acertada no amor acaba passando por perrengues… Afinal, Natal e réveillon são as únicas datas, além do dia dos namorados, em que qualquer miséria sentimental toma dimensões catastróficas. Ousaria até afirmar que um coração partido nas festas de final de ano pode doer mais que no 12 de junho.

No dia dos namorados, tirando as cutucadas de uma ou outra amiga sem noção, daquelas que gostam de se intrometer na vida dos outros, você consegue manter sua dor ali quietinha, medicada e com um belo curativo. Basta evitar aqueles programinhas românticos, assistir apenas a filmes de ação e escutar um metal pesado. Quieta no seu canto, é mais fácil suportar.

Já no Natal e no Ano Novo, quem consegue sobreviver aquele batalhão de tia velha e primas recalcadas perguntando “e o namorado?” e outras pérolas no mesmo campo semântico? Se pras solteiras já é difícil, imagina para a burralda com o coraçãozinho em recuperação? (Ô, dó!) Quem consegue ignorar todo aquele clima de festa, de todos-nós-nos-amamos? Pois é, amiguinha: toda ferida dói mais quando se mete o dedo.

Sério, por que família é um bicho tão complicado? E a implicância não é só com as solteiras, não! Se você pensa que, por estar em um relacionamento estável, feliz e contente com seu par vai sair ilesa das comemorações, pare de se iludir AGORA!

Se você está só ficando, conhecendo alguém legal, vão te encher o saco pra saber se é namoro ou amizade. Se ele não for ao evento, vão perguntar por que ele está fugindo do compromisso. Se ele for, vão fazer interrogatório, mostrar aquela sua foto pelada com 3 anos e compará-lo com seu ex – ele vai fugir pro Nepal no primeiro dia útil do ano.

Se você está namorando sério já há algum tempo, é BATATA que vão perguntar quando vão marcar a data do casamento. Se o respectivo for bonito, com certeza vai passar a ceia com um olho na farofa e outro vigiando aquela prima piriguete (porque, você sabe, a inveja é uma merda).

Se estiver casada… “Pra quando é meu netinho?”, “que barriguinha de chopp é essa?”, “mas esse sujeito é mesmo um imprestável”… E você vai passar a ceia com um olho na farofa e outro vigiando aquela prima piriguete para não dar em cima do respectivo, seja ele bonito ou não, porque a aliança no dedo vai torná-lo um deus grego.

Será que uma burralda, apaixonada ou desiludida, não pode ter uma Noite Feliz? Eu poderia ficar aqui fazendo aquele discurso auto-ajuda Pollyanna, do tipo “não se importe com a opinião dos outros, pois a felicidade está dentro de você”, mas vou apelar para algo mais prático.

Supondo que você pode ser uma das burraldas que eu descrevi, lembre-se de que,sob outro ponto de vista, você pode ser a prima piriguete ou tia chata de uma outra burralda, mesmo que não perceba. Portanto, pense duas vezes (três, se já tiver embarcado no espumante) antes de fazer aquela piadinha “inocente”, para “descontrair” a família. Não faça com os outros o que não gostaria que fizessem com você.

FELIZ NATAL para todas nós, com ou sem peru na ceia – you know? ;-)


Dezembro

O fim de tarde quente e úmido brinda meu rosto com uma brisa morna, ainda assim agradável. Caminho devagar pela calçada, observando a decoração natalina de uma das casas, já acesa. A música caipira em um rádio ao longe faz companhia aos burburinhos dos pássaros e ao cantar de uma cigarra, ansiosa pelo dia seguinte de sol – ao menos assim dizia a minha avó.

As crianças brincam na rua em horário que seria escolar, não fosse o período de férias. Os meninos jogam futebol, interrompendo vez ou outra a pelada quando um carro passa pela rua de pouco trânsito. As meninas conversam em uma rodinha no portão da vila. Uma delas exibe um celular recém-adquirido, a única pista de modernidade nesta cena surpreendentemente bucólica para o Rio de Janeiro em 2009.

O céu que já estava escuro de nuvens carregadas, agora clareia-se com um relâmpago. A trovoada faz meu coração tremer. Não de medo, mas não sei explicar a razão. Fecho os olhos por um segundo e sinto as gordas gotas de uma água fresca molhando meu rosto, refrescando o calor de um dia inteiro.

Os meninos continuam a jogar bola. As roupas agora encharcadas e os gritos, juro, mais animados.  Esqueço de me proteger da chuva e, quando me dou conta, o que normalmente seria um martírio, se tornou um prazer, como foi um dia na infância.

Alguns momentos a mais e a chuva para. Outros mais e o sol, teimoso, resurge, se negando a admitir a noite. Finalmente, lembro-me de entrar em casa. É dezembro.

dezembro