‘Generalidades’

O elogio do inimigo

envy

Certa vez, na escola, o professor de redação pediu que escrevêssemos uma crônica. A proposta era escolher uma matéria de jornal e criar uma história em cima daquela notícia. Lembrei que tinha lido sobre uma família que construiu um barraco sobre um viaduto. Isso mesmo: SOBRE o viaduto. Na contramão das favelas que tradicionalmente surgem debaixo dessas vias, eles tinham feito sua moradia na “espera”, aquela área que serve para uma futura ligação com outro viaduto. O objetivo era fugir do aluguel que era cobrado para quem quisesse morar ali embaixo. Enfim, achei que era um fato inusitado e escrevi sobre isso.

Só que, chegando na escola, percebi que tinha esquecido a redação em casa. Pra não falar que o meu cachorro tinha comido meu dever de casa, aproveitei o intervalo para refazer o trabalho.

Na próxima semana, o resultado: 10. Não, não foi o primeiro 10 que tirei, mas esse me marcou especialmente. Ao lado da nota, o professor escreveu a ressalva: “se o texto e o argumento realmente são seus, meus parabéns”.

Todo mundo que me viu escrevendo a redação em sala disse que eu tinha que reclamar, mas fiquei na minha. No meu íntimo, eu sorria: ele achou tão bom que duvidou da minha autoria. E aquilo para mim valeu mais que um 10 floreado apenas de elogios.

Do mesmo modo, dizem que a mulher se arruma para outras mulheres e não para os homens. Eu vou morrer dizendo que me produzo para mim mesma, para o meu ego e para o meu bem-estar. E é a pura verdade. MAS, devo admitir que, se a maioria dos homens não gosta de esmaltes escuros, de “batinhas” e outras modices, de cabelo alisado, cabelo pintado, mulher magra etc., a gente deve mesmo estar fazendo algo errado. E me faz pensar que essa teoria pode ter um fundo de razão.

A inveja, por exemplo, é o elogio do inimigo. Todo mundo fala mal dos invejosos de plantão e nega ser um. Mas ser invejado é algo que, ao mesmo tempo que nos traz um sentimento negativo, bem lá no fundo significa que alguém quer ser como você. E isso valoriza o que você é. É como um carimbinho de aprovação invisível que a pessoa bota na sua testa e diz: você é legal. É como a estrelinha dourada que a professora colava no seu caderno da escola. Se ela fosse dada pela sua mãe, não teria a mesma graça, porque mãe é mãe, e é programada para gostar de qualquer coisa que fazemos. É a sede de vencer um desafio que vem lá da pré-escola.

Por que somos assim? Por que nos importamos mais com a opinião do “inimigo”, do “superior” e do “concorrente” que com a daquele nosso amigo de fé, irmão camarada? Será que é porque quem gosta da gente já tem uma tendência natural em aprovar tudo o que fazemos? Por que sempre queremos o mais difícil? Por que complicamos tudo? Por que nosso ego é tão besta assim?

Definitivamente, o ser humano é um bicho muito estranho.

Renatinho

russo

Quando eu tinha uns 6 anos, contrariando a vibe Xuxa do momento, eu gostava de cantar Eduardo e Mônica. Eu sei, pode soar um tanto precoce. Mas quem irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração?

Aos 12, Renato Russo virou Renatinho, tamanha intimidade com aquele cara que falava língua dos homens e dos anjos. Aos 13, tinha uma fitinha inteira gravada, lado A e lado B, para não ter que ficar dando rewind, com Sete Cidades em versão acústica. Aos 14, salvei um trabalho de grupo ao passar para uma folhinha de almaço toda a letra de Faroeste Caboclo, todos os 159 versos, que sabia de cor. Aos 15, uma cópia manuscrita da letra de Acrilic on Canvas virou carta de amor – contra a vontade, mas com toda verdade do mundo. Aos 16, vi o futuro passar diante dos meus olhos ao som de Vento no litoral. Aos 17, comprei minha primeira – e acho que única – camisa de banda. Aos 18, chorei a morte de um amigo. Porque eu sou durona, não choro por ídolos. Não sofri pelo cantor do rádio e da TV: chorei a perda de alguém com quem havia vivido todos aqueles momentos. São dele os CDs caça-níqueis póstumos que eu ainda compro, mais por sentimentalismo que por qualquer outro motivo. Foi dele a primeira biografia que eu li. Eu, que não gosto muito de biografias

Faz tempo que eu andava em um clima internacional, só ouvindo gringos. Agora, com 16 GB disponíveis para música no bolso, resolvi passar para mp3 toda a minha coleção empoeirada de CDs da Legião. Já tinha me esquecido o tanto que eu gosto de música nacional e o quanto me faz bem ouvir Renatinho.

Sei que hoje em dia é brega gostar de Legião. Aquelas pessoas que odeiam rodinha de violão é que devem ter ditado essa moda. Mas eu gosto. E daí?

Eu gosto do que é simples e sincero e não estou nem aí pra ser cool.

Segredo

key

Difícil é querer contra a razão
Sentindo o sim da sua pele
E dizendo “não” em palavras tortas

Esqueça qualquer ideia atrevida
Mas não esqueça que te quero

Desfaça qualquer plano
Mas não deixe de sorrir

Sei que devo ir
Mas guarde esse desejo que vi no seu olhar

Guarde contigo esse desejo
Que eu também te guardarei aqui
Sem juizo, com paixão

Amigo cafa

Todo mundo sempre reclama do cafajeste, aquela pessoa que te ignora, enrola e pela qual você continua apaixonada. Mas pode reparar que os cafas não estão presentes na nossa vida apenas no campo das relações amorosas.

Quem não tem aquele amigo ou amiga que se acha a última bolacha do pacote e que, talvez por isso, vive te dando cano com a maior cara de pinóquio da face da Terra? Aquele que marca e não aparece. Aquele que só aparece nos bons momentos, nas festinhas, nas baladas. Aquele que dá desculpas esfarrapadas e você tem que fingir que acredita, apenas por política de boa vizinhança. Aquele que sacaneia o garçom. Aquele falante, cheio da lábia, mas nem sempre com bom conteúdo. Aquele que se despede com o famoso “te ligo” e só liga quando precisa de alguma coisa.

Isso, AQUELE. Aquele para o qual continuamos dando trela!

Eu tenho “amigos” assim. (E sei que você também tem.) Mas hoje é dia de faxina. Porque eu não quero uma agenda lotada: quero conviver com pessoas em quem eu possa acreditar. Mentiras sinceras nunca me interessaram, mas agora eu peguei nojinho. E eu só confio em quem levava bolinha de papel dos outros nos tempos de escola .

bolinha

Eu quis o perigo…

Sou uma pessoa extremamente organizada, mas isso não significa que sou daquelas pessoas certinhas que gostam das coisas sempre no mesmo lugar. Não gosto de rotina. Se tem uma coisa que me incomoda é a repetição contínua de qualquer coisa.

É como um eco insuportável que simplesmente me atordoa. Qualquer tipo de rotina faz martelar na minha cabeça a ideia de que poderia estar fazendo outra coisa, tendo a surpresa do novo, tendo o prazer de novas experiências.

Nada me estimula mais do que aprender novas coisas, conhecer pessoas e começar tudo de novo. Não me incomoda o fundo do poço, porque só consigo enxergar a luz que vem lá da borda. Porque quando a gente cai é que se lembra de olhar para cima.

Eu sinto falta daquilo que pode vir a ser. Vontade de viver o que ainda não vivi. Saudade do que ainda não vi.

Medo? Tenho, sim. De ficar sempre no mesmo lugar. A estrada é longa, mas o caminho eu escolho.

Eu quis o perigo...

“Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda, assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
que me entende do início ao fim
E é só você que tem a cura para o meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi…”