‘Citações’

Equalize

Olha só como são as coisas… Eu não gosto da Pitty. Mas hoje estava assistindo ao Luau MTV e a vi cantando uma música cuja letra me chamou muito a atenção. Identificação imediata. Quem me conhece ou tem acompanhado o blog sabe do que estou falando. É engraçado como às vezes nos encontramos em coisas e pessoas onde menos esperamos. Lembrei agora de uma entrevista do Renato Russo, na qual ele falava sobre como uma música do Gilliard pode dizer tudo o que você sente em um momento. Não que a Pitty seja brega. Mas nunca fui fã ou mesmo gostei de suas músicas. Mas hoje ela é o meu Gilliard.

Equalize
(Pitty/Peu Souza)

Às vezes se eu me distraio
Se não me vigio um instante
Me transporto pra perto de você
Já vi que não posso ficar tão solta
Me vem logo aquele cheiro
Que passa de você pra mim
Num fluxo perfeito
E enquanto você conversa e me beija
Ao mesmo tempo eu vejo
As suas cores no seu olho, tão de perto
Eu me balanço devagar, como quando você me embala
O ritmo rola fácil, parece que foi ensaiado

E eu acho que eu gosto mesmo de você
Bem do jeito que você é

Eu vou equalizar você
Numa frequência que só a gente sabe
Eu te transformei nessa canção
Pra poder te gravar em mim

Adoro essa sua cara de sono
E o timbre da sua voz
Me dizendo coisas tão malucas
E que quase me mata de rir
Quando tento me convencer
Que eu só fiquei aqui
Porque nós dois somos iguais
Até parece que você já tinha
O meu Manual de Instruções
Porque você decifra os meus sonhos
Porque você sabe o que eu gosto
E porque, quando você me abraça, o mundo gira devagar

E o tempo é só meu e ninguém registra a cena
De repente vira um filme, todo em câmera lenta
E eu acho que eu gosto mesmo de você
Bem do jeito que você é
Eu vou equalizar você
Numa frequência que só a gente sabe
Eu te transformei nessa canção
Pra poder te gravar em mim

E quem irá dizer que existe razão?

As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

(Carlos Drummond de Andrade)

Antes que me perguntem: sim, estou inspirada… Não estou extremamente feliz. Mas o querer ser é o que importa, não é verdade? Certos sonhos têm a capacidade de nos fazer felizes apenas por existirem. Pelo desejo, pela ansiedade, pela possibilidade.

Um brinde ao desejo.

Tenham uma excelente semana.

Drummond e Adélia

Achei este poema da Adélia Prado no blog da Marina. Perfeito. Já tinha lido há muito tempo e nem lembrava mais. Claro que tive de reler o poema do Drummond, que vai de brinde pra vocês:

Drummond e Adélia

Serenata

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

(Cecília Meireles)

Atenção ao sábado

Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço; sábado ao vento é a rosa da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas.No sábado é que as formigas subiam pela pedra.

Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho. De tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: ao vento sábado era a rosa de nossa semana. Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não é?

No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde. Tem sido sábado, mas já não me perguntam mais.

Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã. Domingo de manhã também é a rosa da semana. Não é propriamente rosa que eu quero dizer.

(Clarice Lispector)

PS: Daqui a pouco vcs estarão fazendo um abaixo-assinado pelo excesso de Clarice Lispector no blog… (Mas vou dizendo logo que não adiantará muito… rs…)