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Sua

Porque você me consola
Porque você me entorpece

Porque você me enxerga
Porque você me sente

Porque você me canta
Porque você me encanta

Porque você pede licença
Porque você me invade

Porque você me faz rir
Porque você não me faz chorar

Porque você me acalma
Porque você me enlouquece

É que me vi assim:
Subitamente SUA

Era uma vez…

Era uma vez...

Era uma vez uma menina que adorava brincar com bolhas de sabão. Ela era fascinada pela beleza daquelas frágeis bolinhas transparentes. Aquele brilho multicolorido que flutuava diante de seus pequenos olhos fazia com que brotassem gargalhadas de felicidade. A brincadeira era a única coisa que a deixava realmente feliz.

Um dia, a menina percebeu que tudo aquilo que ela mais gostava era efêmero demais. As bolhinhas sempre se desfaziam rapidamente, fosse no choque com algum obstáculo, fosse se dissipando no ar. Isso a deixava muito triste, pois ela queria gargalhadas que durassem a vida toda.

Então, a menina resolveu não brincar mais. Guardou seu último restinho de sabão e jurou que só o usaria novamente quando inventassem um jeito de fazê-las durarem para sempre.

Todos os dias, a menina saia de casa e sentava na calçada. Ficava ali, horas a fio, vendo as outras crianças brincando, fazendo bolhas e mais bolhas sem se preocupar se elas acabariam ou não. Ela gostava de assistir, mas isso não a fazia sorrir.

Até que um dia, um menino sentou ao seu lado. Ele perguntou porque ela não brincava como os outros. Ela contou seu medo. Ele, então, disse:

- As bolhas nunca serão para sempre. Você não pode deixar de brincar por causa disso.

Ela sorriu pra ele. Sim, ele a fez sorrir. E, ao sorrir, ela pensou que não eram só as bolhas que poderiam fazê-la feliz.

Assim, ela pegou o vidro com o restinho de sabão que havia guardado e fez muitas bolhinhas, bolhas pequenas, bolhas grandes, coloridas e brilhantes, que voavam longe. Ela ria, gargalhava no meio de tantas bolhas. Algumas pipocavam em seu rosto, outras explodiam em seu vestido enquanto ela rodopiava.

Ela rodava, rodava, de olhos fechados, rodava, sentindo o vento nos seus cabelos, rodava, gritando de felicidade, rodava, até que caiu no chão, tonta de alegria. Olhou para cima, e, entre os fortes raios de sol, ainda viu, por instantes, algumas últimas bolhas que teimavam em não desaparecer. A menina ria tanto, que nem se deu conta de que havia gastado até a última gota do sabão.

Depois de retomar o fôlego, a menina levantou. Olhou para cima. Percebeu que não havia mais bolhas. Olhou em volta e viu que estava sozinha. O menino não estava mais lá. Olhou para o chão. Viu o seu vidrinho de sabão vazio.

A menina sentou na calçada. E chorou.

Amor?

Cada vez mais eu tenho certeza de que não sei o que é o amor. O amor é vasto e complexo demais para que alguém possa afirmar que o compreende na sua totalidade. O amor é tão incompreensível quanto uma equação logarítmica. É mais fácil decorar todas as declinações do latim. Mais fácil aprender “japonês em braile”.

Porque entender o amor é entender o ser humano. E, na boa, isso nem Freud explica. Somos complicados, inconstantes, egoístas. Queremos o que não temos. Queremos o impossível. E, muitas vezes, nem sabemos o que queremos.

Porque amar não é saber. Não é entender. O amor real é o sentimento mais imprevisível e imperfeito que existe. Mas a perfeição amor-perfeito-príncipe-encantado-viveram-felizes-para-sempre é chata demais. Então, quem se importa?

O amor é perigoso. Como disse uma vez o Jabor, existe “sexo seguro”, mas não há camisinha para o amor. E adoramos correr esse risco.

Porque amar é ir ao cinema de mãos dadas. É correr na praia deserta em slow motion. Mas também é ter medo. É ter dúvidas. É chorar ouvindo música de dor de cotovelo. É quebrar a cara e continuar tentando.

O amor não tem regra ou razão. Amor é amor e pronto. Basta. Mesmo que dê tudo errado. Mesmo que dure pouco. Mesmo que nem comece. A única certeza é que, dentro de nós, temos todos os sonhos do mundo. Mesmo que eles não se realizem.

(E o resto do mundo que se dane.)

Amor e sexo

Olha que interessante… Acabei de achar o artigo do Arnaldo Jabor que deu origem à música “Amor e sexo”, da Rita Lee… Divirta-se! ;-)

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Amor é propriedade. Sexo é posse. Amor é a lei; sexo é invasão.

O amor é uma construção do desejo. Sexo não depende de nosso desejo; nosso desejo é que é tomado por ele. Ninguém se masturba por amor. Ninguém sofre com tesão.

Amor e sexo são como a palavra farmakon em grego: remédio ou veneno – depende da quantidade ingerida.

O sexo vem antes. O amor vem depois. No amor, perdemos a cabeça, deliberadamente. No sexo, a cabeça nos perde. O amor precisa do pensamento.

No sexo, o pensamento atrapalha.

O amor sonha com uma grande redenção. O sexo sonha com proibições; não há fantasias permitidas. O amor é o desejo de atingir a plenitude. Sexo é a vontade de se satisfazer com a finitude.

O amor vive da impossibilidade – nunca é totalmente satisfatório. O sexo pode ser, dependendo da posição adotada. O amor pode atrapalhar o sexo. Já o contrário não acontece. Existe amor com sexo, claro, mas nunca gozam juntos.

O amor é mais narcisista, mesmo na entrega, na ‘doação’. Sexo é mais democrático, mesmo vivendo do egoísmo.

Amor é um texto. Sexo é um esporte. Amor não exige a presença do ‘outro’. O sexo, mesmo solitário, precisa de uma ‘mãozinha’. Certos amores nem precisam de parceiro; florescem até na maior solidão e na saudade. Sexo, não – é mais realista. Nesse sentido, amor é uma busca de ilusão. Sexo é uma bruta vontade de verdade. O amor vem de dentro, o sexo vem de fora. O amor vem de nós. O sexo vem dos outros. ‘O sexo é uma selva de epilépticos’ (N. Rodrigues). O amor inventou a alma, a moral. O sexo inventou a moral também, mas do lado de fora de sua jaula, onde ele ruge.

O amor tem algo de ridículo, de patético, principalmente nas grandes paixões. O sexo é mais quieto, como um cowboy – quando acaba a valentia, ele vem e come. Eles dizem: ‘Faça amor, não faça a guerra.’ Sexo quer guerra. O ódio mata o amor, mas o ódio pode acender o sexo. Amor é egoísta; sexo é altruísta. O amor quer superar a morte. No sexo, a morte está ali, nas bocas. O amor fala muito. O sexo grita, geme, ruge, mas não se explica.

O sexo sempre existiu – das cavernas do paraíso até as ’saunas relax for men’. Por outro lado, o amor foi inventado pelos poetas provençais do século 12 e, depois, relançado pelo cinema americano da moral cristã. Amor é literatura. Sexo é cinema. Amor é prosa; sexo é poesia. Amor é mulher; sexo é homem – o casamento perfeito é do travesti consigo mesmo. O amor domado protege a produção; sexo selvagem é uma ameaça ao bom funcionamento do mercado. Por isso, a única maneira controlá-lo é programá-lo, como faz a indústria da sacanagem. O mercado programa nossas fantasias.

Não há ’saunas relax’ para o amor, onde o sujeito entre e se apaixone. No entanto, em todo bordel, finge-se um ‘amorzinho’ para iniciar. O amor virou um estímulo para o sexo.

O problema do amor é que dura muito, já o sexo dura pouco. Amor busca uma certa ‘grandeza’. O sexo é mais embaixo. O perigo do sexo é que você pode se apaixonar. O perigo do amor é virar amizade. Com camisinha, há ’sexo seguro’, mas não há camisinha para o amor.

O amor sonha com a pureza. Sexo precisa do pecado. Amor é a lei. Sexo é a transgressão. Amor é o sonho dos solteiros. Sexo é o sonho dos casados. Amor precisa do medo, do desassossego. Sexo precisa da novidade, da surpresa. O grande amor só se sente na perda. O grande sexo sente-se na tomada de poder.

Amor é de direita. Sexo, de esquerda – ou não, dependendo do momento político. Atualmente, sexo é de direita. Nos anos 60, era o contrário. Sexo era revolucionário e o amor era careta.

(Arnaldo Jabor)