Escritora sem papel

Não, este não é um post sobre quem escreve no computador. E nem eu estou me achando escritora no sentido formal da coisa. Só estava pensando sobre a forma como eu escrevo. Escrevo o tempo todo. Escrevo na rua, enquanto espero o ônibus. Escrevo no banho, enquanto a água cai. Escrevo na cama, enquanto espero o sono chegar. Escrevo sem caneta, sem papel, sem computador. Escrevo as palavras na minha cabeça. Frases que nunca serão lidas, histórias que não serão contadas, versos que não serão cantados.

Acho que 99% das palavras que imagino não são compartilhadas, ninguém vai tomar conhecimento, pois não se tornam concretas, reais. Embora, por muitas vezes, sejam pura realidade. E outras, não passem de delírios surreais de uma cabeça que não tem mais o que fazer. (Ou tem, mas insiste nesse estranho hábito…) Talvez seja justamente isto: palavras são meu entretenimento. Gosto de brincar com as palavras. Simples assim. Sem pretensão. Só diversão. Combinação e permutação de significados, cores, sons, sentimentos, idéias…

É como se eu tivesse um enorme guarda-roupa à minha disposição e me divertisse experimentando e escolhendo o visual mais legal, aquilo que me cai bem, a produção mais bonita – mesmo que não fosse sair. Eu sei… Se eu não sair, ninguém verá a roupa que escolhi. Às vezes, não saio por ter um pouco de receio, medo das peças não estarem combinando ou estarem fora de moda. Mas, geralmente, visto as roupas por vestir, só pra saber se ficarão legais se eu usá-las. Quem nunca comprou uma blusa nova e, quando chegou em casa, vestiu não só a blusa, mas fez uma produção completa, só para curtir a nova aquisição? E a brincadeira faz um bem danado ao nosso humor… Mas, como sair com roupa nova também faz bem, aqui estou eu escrevendo estas bobagens – e o pior, publicando-as.

Bobagens, como eu disse, sem pretensão – só pelo bem que as palavras me fazem. (Quem disse que diversão não cura?) Com as palavras, eu posso brincar de ser quem eu quiser. Os dias, repletos de palavras, escritas ou pensadas, ficam mais claros e repletos de possibilidades, repletos de planos. Brinco de escrever um roteiro pra minha vida. De escolher o que eu quero e o que eu não quero. Brinco de escolher as palavras certas, as mais brilhantes e doces que se possa imaginar. Claro que nem sempre o script sai do papel. Mas a brincadeira por si só já é o suficiente para provocar um sorriso bobo, como aqueles que deixamos escapar ao ver um final feliz, daqueles dignos de Hollywood. Infelizmente, os créditos já estão subindo. Alguém acendeu a luz. É hora de deixar o cinema e voltar à vida real. Mas fica a sensação de que ela pode ser maravilhosamente cinematográfica. É só a gente querer. (E eu já a sinto assim.)

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Publicado em Crônicas e Contos.

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