Dar ou não dar (o troco)

Minha avó já dizia que a vingança é um prato que se come frio. Eu, escorpiana até os dentes, discordava um pouquinho dessa teoria. Acreditava que, se você quer dar o troco em algum filho da puta que te puxou o tapete, que te sacaneou ou que te traiu (afinal, é disso que mais falamos aqui), tal vingança, para ter um mínimo de graça (e efeito) devia ser imediata e, portanto, um prato quente, fumegando e saindo fumaça, além, claro, de pouco calórico, pois ninguém aqui quer engordar. 😉

E que ninguém aqui venha me crucificar. Atire a primeira pedra quem nunca se vingou (ou ao menos teve vontade de) de algum ex-metido-a-besta. Não adianta. Somos seres humanos, não temos sangue de barata. Por mais bonzinhos e certinhos que sejamos, um dia o poste cansa e resolve mijar no cachorro. Você deve estar se perguntando “porque essa burralda está tão vingativa hoje?”. Não estou não, muito pelo contrário. Com o tempo, passei a pensar duas vezes antes de entrar numa dessas. Dando alguns exemplos, você vai ver aonde quero chegar.

Certa vez, após um desses pés na bunda clássicos, cuja história não vem ao caso agora, resolvi cair de boca (opa!) no Cajuzinho. (Bom, com todo esse papo gastronômico, passei a denominar as minhas refeições, digo, “caras com os quais resolvi dar o troco em alguém” sempre por apelidinhos apetitosos.) Voltando. Caju era um carinha legal (ih…), fofo (ihhh…) e simpático (ihhhhhh…). Ou seja, não era nenhum banquete, mas dava pra matar a fome e a sede de vingança que eu estava no momento. E o que a burralda aqui resolve fazer?

a) Ir para o barzinho-point do outro – e pagar o Caju na frente dele;
b) Ir ao clube onde o irmão do outro trabalhava – e pegar o Caju na frente dele;
c) Aceitar o convite-sem-noção-pra-uma-festa do outro – e pegar o Caju na frente dele.

Burralda desde sempre, escolhi todas as opções acima. Resultado? O outro nem tchum pra mim. Magoei o pobre do Cajuzinho, que logo sacou tudo. E, principalmente, ME magoei com toda essa pegação inútil, infantil e insosa. (Sim, eu sou do tipo que não gosta de pegar por pegar.)

Outra vez, depois de mais uma decepção com um relacionamento meio bizarro, resolvi de novo “mijar no cachorro”. Coincidentemente, havia conhecido fazia pouco tempo Manjar, um cara bonitão e bacana, mas que fazia mais o gênero amigão. Tão amigo, que eu, com medo de magoar mais alguém com minhas vingancinhas, resolvi abrir o jogo de vez e pedir ajuda. Como não havia nenhuma segunda intenção entre nós (e ele também não estava comprometido), combinamos de fingir que estávamos namorando. Meia dúzia de encontros em lugares estratégicos, alguns comentários (des)pretensiosos com conhecidos em comum e milhares de fofocas e boatos depois, o falecido resolveu me procurar querendo voltar. Sim, a vingança funcionou. (Porque temos que admitir: na verdade, nos vingamos não pro cara sofrer, mas por, no fundo, querer que ele volte pra gente.)

E eu? Voltei pro ex? Não, minha cara. O feitiço virou contra a feiticeira. Fui provar do Manjar e fiquei mal acostumada. Me apaixonei pela iguaria e já tava achando que o falecido era carne de segunda. Manjar, claro, não demonstrou o mesmo interesse. Acabei passando fome, sem Manjar e sem churrasquinho de gato.

Hoje, por mais que venha lá do fundo uma vontadezinha de me vingar de alguém, conto até dez e espero passar. Porque, acredite, isso passa. Posso até sair por aí pegando um fast-food só pra enganar o estômago e espairecer a mente. Mas nunca mais encaro isso como possível solução para a minha dor de cotovelo. Não, não virei santa ainda. É que dar o troco é complicado demais. Por mais que o prato seja saboroso, a gente sempre sai no prejuízo.

Jujumenta

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Publicado em www.MuleBurra.com.

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