O doce troglodita

Sabe aqueles caras enormes, gigantes, sarados, 100% proteína e 0% de gordura, S-10 preta com som bombando e pit bull do lado? Pois bem, eu odeio o tipo.

Nunca, em toda a minha trajetória burráldica, me interessei por alguém assim. Até porque, além de não me atraírem (fisicamente falando mesmo), a tendência natural é de acharmos que todos os “trogloditas” são brutos, sem noção, bobos e – porque não dizer – burros. (Pronto, falei.) Como de burra já basto eu (e odeio academia), nunca tinha me envolvido com alguém com esse perfil.

Pois bem. Nos idos de mil novecentos e lá vai bolinha, conheci Pit. Era época da faculdade (me senti velha agora), e apesar dos diferentes cursos – ele fazia Educação Física, lógico – pegamos uma matéria eletiva em comum. O cara era bonito, não dava pra negar, e logo chamou a atenção da mulherada, que o disputava a tapas e puxões de cabelo para trabalhos em grupo, mesmo que o sarado tivesse um rendimento acadêmico muito do meia-boca.

Como sempre fui chata, nem me aproximava daquele Johnny Bravo tupiniquim achando que não houvesse nada interessante nele além daquela bundinha dura. (Hehehehe.) Até que, num belo dia, o destino resolveu bancar o Bozo e o elevador em que subíamos enguiçou. Cubículo apertado, dois quase desconhecidos e um ventilador quebrado como companhia. Vinte minutos depois, quando saímos de lá, éramos amigos de infância.

A partir daí, Pit e eu passamos a ficar juntos durantes as aulas. Eu o ajudava com a matéria, e ele se mostrou um aluno esforçado, revelando uma inteligência (não no sentido de notas boas, mas no sentido de pensar mesmo) maior que muito CDF dali. Passei a entender como ele pensava, o que queria da vida. Era filhinho de papai (rico), sim. Mas trabalhava nas horas vagas num projeto social. Lutava Jiu Jitsu e vivia se estapeando com meia dúzia de outros “armários” dos quais não ia com a cara, mas era um artista e desenhava como poucos. Muitas coisas sobre ele eu não vou contar aqui, porque não fazem diferença no que eu quero contar, e porque, por mais que nunca mais o tenha visto, jurei que guardaria segredo. E isso eu sei fazer bem.

Um dia, em um intervalo, o vi no canto do corredor, discman nas mãos e lágrimas nos olhos. Ele olhou pra mim e sorriu. Eu não perguntei, mas ele respondeu:

– É a música.
– Bonita?
– Quase tão bonita quanto você.
(Sorriso.)
– Mas por que o choro?
– Porque todo esse tempo você me ajudou a ser uma pessoa como eu sempre quis ser. E eu quis ser como você e quis ter você. E eu vejo que não vou conseguir nem uma coisa nem outra.

Não, eu nunca tinha percebido segundas intenções e nem nunca as tive. E, não, não rolou. (Sim, Oscar de burrice pra Juju.) Sei que devia ter me jogado nos braços daquele Apolo-fofo. Mas, infelizmente, ele já era mais como irmão do que outra coisa. Não tinha química, não tinha tesão. Mas foi a melhor declaração que já recebi em toda a minha vida. Ou melhor, a segunda. A melhor de todas já é história para outro post. Talvez um livro. Ou, quem sabe, uma novela. 😉

PS: Definitivamente, estou muito sentimental e pouco palhaça. Acho que corro o risco até de ser demitida e de contratarem o Vesgo do Pânico pra me substituir. Será que ele fica bem de orelhas? 😛

Jujumenta

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Publicado em www.MuleBurra.com.

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