Curto e grosso

(Antes que as leitoras mais afoitas comecem a imaginar bobagens, vou logo avisando que não é nada disso do que estão pensando.)Sempre achei sem graça (para não dizer “escroto”) caras que chegam perguntando na lata coisinhas que segundo minha mente burráldica deveriam ser, digamos, mais floreadas. Ou sequer deveriam ser perguntadas.

Como já falei aqui algumas vezes, frases do tipo “Posso te beijar?” são simplesmente brochantes e incômodas. Brochantes porque cortam qualquer clima de romance impetuoso e espontâneo. Mas principalmente incômodas porque, qualquer das respostas possíveis, sim ou não, é extremamente difícil de ser pronunciada, ainda mais se a “vítima” for tímida.

É quase como estar repentinamente em um daqueles programas de auditório com roletas, luzes piscando e algum prêmio milionário em jogo. Você se vê na frente de uma platéia prendendo a respiração e de um apresentador tiozinho fazendo piadas sem graça, enquanto todos aguardam sua resposta, que, se por ventura for “ê-ê-ê-exataaaaa!!!”, tocará a musiquinha feliz, seguida de muitos aplausos e chuva de confetes brilhantes. Até lá, mesmo com o final feliz você já se borrou toda (não literalmente, please!), já suou até detonar com a escova e já roeu todo o esmalte.

Não seria mais fácil beijar logo? Tão mais simples… Se quiser beijar, beija. Se não quiser, uma virada de rosto e uma desculpa esfarrapada bem dada já resolvem o caso.

Resolvem? (Barulho de disco parando.) Wait a minute. Resolvem ou enrolam?

É melhor resolver uma situação definitivamente ou se livrar dela apenas empurrando com a barriga?

Há casos e casos. Dos mais simples aos mais complexos. Vejamos um exemplo qualquer:

Tenho um amigo, com o qual fiquei algumas vezes. Sempre soube que não ia dar em mais nada, mas todas as vezes que nos encontrávamos, ele perguntava: “quando você vai me dar uma chance de verdade?”. Eu, já sentindo a roleta girando e as luzes na cara, pensava em alguma desculpa amigável e bonitinha, que, no fundo, poderia ser traduzida por “nem rola, colega”. E achava o cara um orangotango sem precedentes por me fazer passar repetidas vezes por aquela situação.

Até que um dia, eu acordei (com TPM e sem paciência – OK, o motivo não foi esse, mas se for explicar vira um texto à parte) e comecei a pensar: que se foda o que ele vai pensar, vou ser direta. Vou falar curto e grosso, sem rodeios. “Eu não quero você.” Compreendeu? Quer que desenhe?

O peso que saiu dos meus ombros foi enorme. E, pasmem, passei a achar que o certo era ele. Não era um orangotango, só sabia o que queria – e era sincero. Ele pode não ter ficado feliz com a resposta, mas não foi iludido, e isso tem mais importância, eu acho. Além disso, EU me senti muito bem. Não gostar de alguém, não é algo ruim. Porque não fiz nada por mal, apenas estava sendo tão sincera quanto ele, e isso me deixou tranqüila e com a consciência limpa. Acho que as pessoas muitas vezes dão mais importância aos fatos pura e simplesmente do que às intenções com as quais as pessoas os cometem.

(Sirene de ambulância. Estão me ameaçando com uma camisa de força caso eu não termine logo com este “momento auto-ajuda”.)

Hoje em dia, minha regra do “não me faça perguntas na lata” passou a ter muitas exceções. Principalmente porque percebi que não gostava de perguntas diretas porque EU não conseguia dar respostas diretas. Continuo achando mais legal quando me beijam sem pedir. Mas se me perguntarem antes, não tenho mais medo da resposta. Acho que passei a ter mais medo de coisas não resolvidas. Estou conseguindo extinguir totalmente a visão “programa de auditório” da minha mente e a vida será bem menos complicada.

PS: Esse texto foi escrito ontem. Hoje, tive uma conversa que me fez concluir mais duas coisas sobre o assunto:
– Ser “curto e grosso”, às vezes é o mais delicado e justo que se pode ser, porque é ser verdadeiro.
– A gente só aprende a dizer que não quer alguém, depois que aprende a dizer que quer.

Jujumenta

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Publicado em www.MuleBurra.com.

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