Flashback – Capítulo 2

O sol finalmente começava a revelar seus primeiros raios, quebrando a escuridão da madrugada, quando ela finalmente tomou o ônibus. Ficara aguardando o coletivo por quase meia hora, sozinha,  debaixo de uma suave garoa, resquício da chuva da noite anterior. Com um suspiro, subiu os degraus. Contava o dinheiro, murmurando uma antiga canção. Com o porta-níqueis na mão, as moedas eram como pequenos brinquedos brilhantes, desviando sua atenção.

– Vai passar, senhora?

– Desculpe, me distraí.

Pagou a passagem e passou pela roleta. Sentou-se e, enquanto passava  a mão pelos cabelos úmidos, repassava em sua memória todos os momentos que vivera nas últimas horas. Um meio sorriso no canto dos lábios deixava revelar sua satisfação pelo feito. Mal podia acreditar que tinha voltado lá. Já fazia mais de um ano desde a última vez, no entanto o sentimento ainda era o mesmo: não poderia mais lutar contra isso.

Desembaçou com as mãos um pedaço da janela para que pudesse observar o caminho. A cada rosto que passava pela calçada, via os olhos dele. E todos os olhos pareciam observar-lhe. Todos os olhos pareciam sorrir-lhe.

Já perdia a noção do tempo quando chegou ao seu destino. Deu sinal. Ao descer do ônibus, tropeçou, distraída, e iria ao chão se não fosse amparada pelo senhor de chapéu que aguardava sua descida para tomar a condução.

– Está bem, minha jovem?

– Nunca estive tão bem em toda a minha vida.

Mais meia dúzia de passos e abriu o portão de casa. Subiu as escadas em um silêncio triunfante. Trocou-se, colocando rapidamente a camisola, e sentou-se do lado esquerdo da cama, ao mesmo tempo em que o despertador começava a tocar, marcando seis horas.

– Bom dia, querido.

E levantou-se para fazer o café.

*   *   *

(Leia o primeiro capítulo aqui.)

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Flashback

Era noite. A chuva forte que caía não permitia que ela enxergasse bem mais de alguns metros a sua frente. Ela não tinha o costume de andar sozinha. Não naquele horário. Muito menos naquele lugar. Mas ela estava sozinha. E não usava guarda-chuva. Não sabia ao certo porque resolvera sair assim debaixo de chuva. E estava de preto. Bem no fundo, ela sabia que, quando se vestia de preto, vestia-se de outra pessoa. Vestia-se de uma intenção.

As ruas estreitas e os casarões antigos. Alguns tipos suspeitos encostados nas portas de ferro das lojas fechadas. A pouca iluminação. Nada fazia com que sentisse medo. Ela sabia aonde ia, mas não sabia como chegar. Apenas uma vaga lembrança a guiava. Às vezes, a intuição é mais eficiente que um guia de ruas.

Sim, ela já havia estado ali. A rua lhe parecia familiar. As mesmas casas antigas. O movimento nas lojas. Ainda chovia, mas isso não a incomodava. “SON” – a visão do letreiro em neon lhe fez sorrir discretamente com o canto da boca. E gargalhar por dentro. Era ali.

Entrou devagar na loja, observando todos os detalhes. As peças. Os instrumentos. Ligeiramente empoeirados. Tudo numa perfeita e harmoniosa desorganização. Ele veio ao seu encontro. Ela lhe dá um beijo. No rosto.

– Por que no rosto?

– Não sei… Desculpe…

Ele respondeu algo. Ela não prestou atenção. Ele falava coisas sem importância. Mesmo que fossem importantes, ela não conseguiria decifrar. Só ouvia a voz dele, sem entender as palavras. As palavras não importavam. Não naquele momento. Toda sua atenção estava voltada para uma pequena mecha do cabelo dele que caía sobre os olhos.

De repente, ela desperta do transe:

– Anda, vamos subir. Você não pode ficar com essa roupa molhada.

Ele morava no andar de cima. Fechou a loja e em seguida a encaminhou pela escada estreita. A porta rangeu ao ser fechada, assim como o assoalho de madeira ao ser pisado. O piso de tábua corrida, já opaco de tão gasto. O barulho das chaves. As pequenas gotas de água que pingavam de sua roupa e de seus cabelos e faziam o chão pontilhado de estrelas.

As enormes janelas azuis pareciam saídas de um casarão do século XIX. Estavam metade abertas e metade fechadas. O descascado em um canto revelava o amarelo da camada de tinta anterior. E um dos vidros estava trincado. Ela não sabia porque reparava tanto nas janelas. Talvez por não haver móveis no cômodo. Só alguns objetos espalhados. Não havia luz no ambiente. A pouca iluminação vinha das janelas, dos letreiros do lado de fora. Uma claridade pálida de lâmpada fluorescente ou neon…

Ele liga um radinho que estava em um canto, no chão. O som era ruim, chiava bastante, mas a música preencheu o ambiente. “Strangers in the night…” Ela não achou a velha canção fora de moda. Ele veio na direção dela sem dizer palavra alguma. Ela também não tinha vontade de falar. Mesmo que quisesse, a voz não sairia. Ele a olhava como se fosse a primeira e última vez. Ela tremia por dentro.

(…)

Pela manhã, uma música ainda chiava no rádio. Mas ela não estava lá.

* * *

PS: Republicando esse texto por dois motivos:

1) Eu gosto dele e deletei meu blog antigo com todo o histórico. 🙁

2) Talvez venha uma continuação por aí. 😉

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Era uma vez…

Era uma vez...

Era uma vez uma menina que adorava brincar com bolhas de sabão. Ela era fascinada pela beleza daquelas frágeis bolinhas transparentes. Aquele brilho multicolorido que flutuava diante de seus pequenos olhos fazia com que brotassem gargalhadas de felicidade. A brincadeira era a única coisa que a deixava realmente feliz.

Um dia, a menina percebeu que tudo aquilo que ela mais gostava era efêmero demais. As bolhinhas sempre se desfaziam rapidamente, fosse no choque com algum obstáculo, fosse se dissipando no ar. Isso a deixava muito triste, pois ela queria gargalhadas que durassem a vida toda.

Então, a menina resolveu não brincar mais. Guardou seu último restinho de sabão e jurou que só o usaria novamente quando inventassem um jeito de fazê-las durarem para sempre.

Todos os dias, a menina saia de casa e sentava na calçada. Ficava ali, horas a fio, vendo as outras crianças brincando, fazendo bolhas e mais bolhas sem se preocupar se elas acabariam ou não. Ela gostava de assistir, mas isso não a fazia sorrir.

Até que um dia, um menino sentou ao seu lado. Ele perguntou porque ela não brincava como os outros. Ela contou seu medo. Ele, então, disse:

– As bolhas nunca serão para sempre. Você não pode deixar de brincar por causa disso.

Ela sorriu pra ele. Sim, ele a fez sorrir. E, ao sorrir, ela pensou que não eram só as bolhas que poderiam fazê-la feliz.

Assim, ela pegou o vidro com o restinho de sabão que havia guardado e fez muitas bolhinhas, bolhas pequenas, bolhas grandes, coloridas e brilhantes, que voavam longe. Ela ria, gargalhava no meio de tantas bolhas. Algumas pipocavam em seu rosto, outras explodiam em seu vestido enquanto ela rodopiava.

Ela rodava, rodava, de olhos fechados, rodava, sentindo o vento nos seus cabelos, rodava, gritando de felicidade, rodava, até que caiu no chão, tonta de alegria. Olhou para cima, e, entre os fortes raios de sol, ainda viu, por instantes, algumas últimas bolhas que teimavam em não desaparecer. A menina ria tanto, que nem se deu conta de que havia gastado até a última gota do sabão.

Depois de retomar o fôlego, a menina levantou. Olhou para cima. Percebeu que não havia mais bolhas. Olhou em volta e viu que estava sozinha. O menino não estava mais lá. Olhou para o chão. Viu o seu vidrinho de sabão vazio.

A menina sentou na calçada. E chorou.

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Crise de identidade

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– Triiiiiiiiiiiimmmm…
– Empresa tal, bom dia!
– Bom dia! Quem fala?
– Lina.
– Ahn?
– Lina!
– Marina?
– Li-na!
– Ahhhh! Nina!
– É, Nina… (Suspiro. PQP.)

(…)

Depois de uns 574 diálogos semelhantes, tomei a decisão.

– Triiiiiiiimmmm…
– Empresa tal, bom dia…
– Quem fala?
– MARIA.

(Primeira semana no trabalho, e já tive que mudar de nome.)

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